Musicalidade Visual
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O SOM EM GESTOS E EXPRESSÃO
Pensar em acessibilidade cultural é considerar a subjetividade das pessoas que compõem o público, seus interesses e possibilidades. Na tradução de músicas para línguas de sinais, em sua maioria, apenas a letra e o ritmo são trazidos para o corpo do tradutor-intérprete. No entanto, boa parte da experiência musical está no sentir o conjunto, com todos os seus elementos presentes, estruturando a obra. A Musicalidade Visual - técnica criada pelo Coletivo Desvio Padrão - amplia a tradução, no intuito de transmitir o todo para as pessoas que acessam a música pela visão. A proposta é tornar visual, através do corpo do intérprete de Libras, os elementos musicais - como ritmo, harmonia, melodia, timbre, altura, volume e dinâmica - e as sensações que a composição provoca.
Foi em agosto de 2023, no CHIII - Festival de Música Criativa (Uirapuru Produtora), que o Coletivo Desvio Padrão iniciou a experimentação de interpretação de músicas instrumentais - sem ou com pouca letra. O primeiro experimento trouxe grandes desafios, já que o Festival fomenta artistas que exploram novas linguagens sonoras, quebrando os limites de gêneros específicos, especialmente do formato de canção. O Festival convida artistas que propõem outras formas de perceber a música, com o uso de sintetizadores, da voz como instrumento, de ruídos e de improvisação livre, por exemplo. A originalidade das propostas musicais desafiou a criatividade e o corpo dos intérpretes e de alguma forma contribuiu para a estruturação da nossa gramática do corpo tradutor de sons, já que a gama de possibilidades sonoras fora do formato tradicional era enorme.
Desde o primeiro show, as duplas e equipes são compostas por intérpretes surdos e ouvintes, atuando com a técnica feeder (técnica em que a música é interpretada primeiro pelo intérprete ouvinte e, em seguida, reproduzida com liberdade de modificação pelo intérprete surdo que sinaliza diretamente para o público). As equipes são formadas por membros do Coletivo Desvio Padrão e por convidados pontuais, que vêm contribuindo ricamente com o aperfeiçoamento da Musicalidade Visual.
Com esse experimento continuado, somado à pesquisa e ao estudo, a Musicalidade Visual hoje possui uma estrutura base sistematizada - que direciona a melhor expressividade/performance de acordo com cada elemento, decifrando partes do corpo onde ressoam mais. O público surdo tem sido nosso principal norte nas descobertas, aceites e descartes.
Seguimos construindo!